2019

MACC

Para se conectar à experiência do universo dos arquivos órfãos como um organismo vivo, essas salas expositivas foram desenhadas com inspiração em um espaço circular, mitopoético e imaginário, flutuante nos tempos das muitas memórias que nos precedem e nos unem.

A expografia criada alude à dinâmica da vida das imagens, instigando suas correlações com o mundo dos arquivos anônimos: aparição, desaparição e reaparição. Esse movimento triádico perfaz a compreensão harmônica dos estados latentes das imagens que podem co-habitar uma mesma sala expositiva: os ciclos do nascer, desaparecer e superviver.

TOTE

Outono dos Arquivos Órfãos

Fotografias avulsas, livres e em deslocamentos errantes, apátridas e sem destino. Imagens enlutadas pela perda de seus álbuns, “seus berços” de arquivos familiares, tornam-se silentes sobre o seu passado na medida em que se afastam de seus começos e recusam-se a dizer o que já viveram um dia. Como restituir essas fotografias – que poderiam bem serem os restos, as excluídas, as enjeitadas – a um lugar no mundo? Como tocar na supervivência destas fotografias que agora respiram adormecidas no silêncio pulsante de um arquivo órfão, embebidas em seus esquecimentos, sobras e intervalos poéticos?

Da propositura do desafio de encontrar possibilidades artísticas e poéticas para lidar com tais indagações, nasce o conjunto de trabalhos desta exposição Outono dos Arquivos Órfãos. Projetos visuais de rara sensibilidade que se preocuparam em “oferecer um destino” às fotografias vernaculares anônimas, desarticuladas de seus álbuns e de seus arquivos e encontradas por catadores de lixo reciclável abandonadas nas ruas de Campinas.

A realização deste trabalho coletivo, no contexto do Grupo de Estudos do Ateliê CASA, é também o projeto inaugural nascido da documentação do ACHO – Arquivo Coleção de Histórias Ordinárias, e reflete o movimento a que se lançaram sete artistas visuais – Alice Grou, Estefania Gavina, Elaine Pessoa, Olívia Niemeyer, Helena Giestas, Norma Vieira e Vane Barini, – ao longo do ano de 2018, sob minha orientação e curadoria, mas indispensavelmente sob a magnitude de um arquivo de fotografias anônimas e seus enigmas.

Uma combinação de desejos e de revelações expostas aos riscos imaginativos, aos quais estas artistas visuais se lançaram ao adotar fotografias anônimas e conviver com elas. Fotografias despretensiosas, quase banais, daqueles dias ordinários em que a vida, e também a morte, parecem ter nos esquecido. Fotografias de “pequenezas”, como o simples golpe do olhar de uma criança impresso em um retrato amarelado, e até um pouco apagado, desvendado em meio a outras imagens desgarradas, entre as últimas fotografias de uma caixa velha. Ou de um jardim, que ainda guarda um pequeno portão por onde entraram e saíram pessoas de um tempo outro, por onde passaram acontecimentos registrados naqueles que posam para a fotografia, emoldurando um gesto de amizade, de entrelaçamento e de afeto.

Um afeto que afeta, que transforma, algo de realidade e imaginação que implica em nós, na nossa história e na memória do mundo. O convívio contemplativo com esse conteúdo atrita um tipo de afeto não decifrável, porém agudo de sentidos, que percorre, como um fluxo invisível, a materialidade dessas velhas fotografias, um mundo que passa e passou por entre elas e entre nós.

Os sete projetos visuais de Outono dos Arquivos Órfãos expressam riscos imaginativos e simbolizam a contaminação a que somos expostos quando nos misturamos e coabitamos com fotografias órfãs, seja por sua inesgotável fonte de inspiração e supervivência, seja por sua falta de parcimônia em nos provocar a reagir e a instalarem em nós o seu armazém de memórias expressivas e sensíveis.

Fabiana Bruno
Curadora